Engenheiro Agrônomo Julio Cesar Abba
Aminoácidos na cultura da Soja

TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

INTRODUÇÃO

A soja (Glycine max) é uma das culturas mais importantes do agronegócio mundial, vital para a segurança alimentar, desempenhando um papel crucial na economia de diversos países, incluindo o Brasil. No entanto, como muitas outras culturas, a soja enfrenta desafios significativos relacionados as práticas agrícolas intensivas e as mudanças climáticas, especialmente no que diz respeito ao estresse hídrico. 

O estresse hídrico é um dos principais fatores limitantes na produção agrícola, afetando o crescimento, desenvolvimento e, consequentemente, a produtividade das plantas. Com as previsões de aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, torna-se necessário buscar soluções sustentáveis que possam aumentar a resistência das culturas. 

Neste contexto, os biofertilizantes de aminoácidos emergem como uma alternativa promissora. Esses compostos orgânicos, derivados de fontes naturais, têm demonstrado potencial para melhorar a tolerância das plantas a diversos tipos de estresses abióticos, incluindo fitotoxicidade de fungicidas e escassez de água. Ao fornecer aminoácidos prontamente disponíveis, estes biofertilizantes podem auxiliar as plantas a manter seus processos metabólicos vitais mesmo em condições de estresse, potencialmente mitigando os impactos negativos tanto do estresse hídrico quanto do estresse químico.

A Cultura da soja

Estima-se que a soja foi cultivada em uma área de 47,3 milhões de hectares no território brasileiro no ano safra 24/25, havendo um crescimento de 2,9% em relação à safra anterior, correspondente a um incremento de 1,33 milhões de hectares dessa cultura. A soja mantém o seu destaque, com uma produção recorde de 169,6 milhões de toneladas, 14,8% ou 21,9 milhões de toneladas superior à da safra 2023/24. O Brasil assegura o título de maior produtor mundial da leguminosa (CONAB, 2024).

Estresses abióticos em lavouras de soja

Para a soja, a germinação-emergência e floração-enchimento de grãos, são os dois períodos mais sensíveis à falta de água no solo, pois, envolvem diretamente a formação dos componentes do rendimento: número de plantas por área, número de legumes por planta, número de grãos por legume e peso médio de grãos (CASAGRANDE et al., 2001; EMBRAPA, 2002). 

Sabe-se que a deficiência hídrica é uma das principais causas de estresse abiótico e causa vários efeitos, quase sempre prejudiciais, modificando em maior ou menor grau, todos os processos fisiológicos (transpiração, absorção e fotossíntese, por exemplo). Dessa forma produz efeitos globais nas culturas, como a redução no crescimento (planta raquítica) e redução na produção final (PEIXOTO, 2020).

Para manter a produção e aumentar a produtividade, é fundamental adotar estratégias para mitigar os efeitos dos estresses abióticos. O uso de biofertilizantes, incluindo biofertilizantes de aminoácidos é uma abordagem promissora. A Lei n.º 15.070 de 23 de dezembro de 2024 estabelece o novo marco regulatório para biofertilizantes no Brasil, fomentando o uso desses produtos e contribuindo para uma produção agrícola mais sustentável e resiliente.

Aminoácidos 

Os aminoácidos são moléculas orgânicas formadas por átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, unidos entre si. Qualquer molécula de aminoácido tem um grupo carboxila (COOH) e um grupo amina (NH₂) ligada a um átomo de carbono. Nesse mesmo carbono ficam ligados ainda um átomo de hidrogênio e um radical (R) (Figura 2) (BUCHANAN et al., 2000).

O radical (R) representa um radical orgânico, diferente em cada molécula de aminoácido encontrado na matéria viva. Cada variação no número ou na sequência de aminoácidos produz uma proteína diferente e assim, existe uma grande variedade de proteínas (BUCHANAN et al., 2000).

Figura 2. Estrutura geral de um aminoácido. Fonte: Teixeira, W. F. (2016), p. 25

Existem vinte aminoácidos essenciais para as plantas, dos quais cada um possui concentrações e funções distintas. As plantas produzem estes aminoácidos de forma natural, no entanto, devido a fatores como estresse hídricos e ataque de pragas e doenças, esta produção pode ser prejudicada ou, ainda, a produção natural pode não ser suficiente para o desenvolvimento eficiente das plantas frente a estas intempéries. As principais funções dos aminoácidos são síntese de proteínas, efeito complexante de nutrientes, maior resistência a estresse hídrico e a altas temperaturas, maior tolerância ao ataque de pragas e doenças e compostos intermediários de hormônios vegetais endógenos (MÓRGOR, 2015).

Polaridade dos Aminoácidos

Os aminoácidos têm propriedades ópticas que desviam o plano da luz para lados opostos. A luz polarizada para o lado esquerdo é chamada de L-Legóviro e para direita D-dextrógiro. Pesquisam indicam que o L-aminoácidos são considerados biologicamente ativos, atuando diretamente no metabolismo das plantas.

Obtenção de L-aminoácidos 

Os L-aminoácidos podem ser extraídos pelos processos de fermentação biológica e hidrólise enzimática. Existe ainda o processo de hidrólise química, porém, este processo afeta as características químicas nos aminoácidos, resultando na racemização do L-aminoácidos em D-aminoácidos.

Aminoácidos na Agricultura

O efeito fisiológico da aplicação de aminoácidos nas plantas ocorre especificamente pela aplicação de aminoácidos livres, ou seja, que não estejam ligados a peptídeos, proteínas ou em amino quelatos. Na forma livre, o aminoácido apresenta sua bioatividade ou efeito benéfico sobre o todo ou partes das plantas cultivadas. 

Os efeitos fisiológicos dos aminoácidos livres aplicados em plantas de importância agrícola é tema de várias pesquisas científicas (MÓGOR; MÓGOR, 2022). A exemplo pode-se citar o trabalho de Zobiole et al. (2010) que observou a redução do efeito fitotóxico do glifosato na cultura da soja após aplicação foliar de aminoácidos livres. Já para a cultura do tomate, efeitos como promoção de crescimento, melhora na eficiência fotossintética, viabilidade do pólen e de produção dos frutos foram relatados (FRANCESCA et al., 2020).

Ertani et al. (2018) após aplicação de aminoácidos na cultura do milho, observaram mitigação de estresse salino aumento de proteínas nas folhas e na produtividade da cultura. A aplicação de aminoácidos tanto via folha quanto em sementes promoveu o aumento da síntese de enzimas do sistema antioxidante em plantas de soja (TEIXEIRA et al., 2017), mitigação do estresse salino em trigo (BEKKA et al., 2018), promoção do crescimento e aumento da produtividade em bulbos de cebola (SHAFEEK et al., 2012).

Em situações de estresse, como altas temperaturas, ataque de pragas, doenças e estresse hídrico, as plantas podem produzir moléculas reativas de oxigênio (EROs) que, em excesso, causam danos às células. Alguns aminoácidos, como glicina, fenilalanina, cisteína e glutamato atuam controlando a produção destas moléculas, através da redução de radicais livres e osmoproteção (TEIXEIRA et al., 2017). 

Os aminoácidos também agem como precursores de hormônios, como é o caso do triptofano, que atua como precursor da auxina (ácido indolacético), responsável pelo crescimento vegetal. Já a metionina é precursora do etileno, que é responsável pela senescência vegetal e maturação dos frutos (TAIZ; ZEIGER, 2017).

Há aminoácidos que atuam na complexação de nutrientes, como o Cu (cobre), Zn (Zinco), Mn (manganês) e Fe (ferro), protegendo e aumentando a disponibilidade deles para a planta, que possuem funções essenciais. O Zn2+ participa da síntese de triptofano, que é precursor das auxinas; o Cu2+ atua no transporte de elétrons do fotossistema I. Lisina, glutamato, cisteína, histidina e glicina são utilizadas como quelato com micronutrientes. A glicina, além de ter uso como quelatizante, é também fonte de N (SOURI; HATAMIAN, 2019).

Estudos demonstram que o uso de aminoácidos via tratamento de sementes pode aumentar a germinação e propiciar o desenvolvimento de um sistema radicular mais bem desenvolvido. Pesquisas mostram também que os aminoácidos propiciam maior enchimento de grãos, consequentemente, desenvolvendo sementes com maior peso, resultando em uma melhor produtividade e possivelmente em maior vigor (ARAÚJO et al., 2008, CORREIA; DURIGAN 2009, CARVALHO et al., 2010).

Embora os biofertilizantes ofereçam muitos benefícios, ainda existem desafios a serem superados, como regulamentação, pesquisa e desenvolvimento e adoção pelos agricultores. No entanto, as oportunidades oferecidas por esses produtos são significativas, e o uso deles pode contribuir para uma produção agrícola mais sustentável e resiliente.

Uso de biofertilizantes na agricultura

De acordo com o Decreto 4.954 de 14 de janeiro de 2004, produtos que apresentam substâncias com efeitos que estimulam o crescimento, desenvolvimento, aumento de tolerância à estresses abióticos, entre outros benefícios para as plantas e que não sejam exclusivamente fontes de nutrientes, são classificados como biofertilizantes (BRASIL, 2025).

Segundo a Instrução Normativa N° 61, de 08 de julho de 2020 os biofertilizantes podem ser classificados como:

  • biofertilizante de aminoácidos: produto obtido por fermentação ou hidrólise de materiais orgânicos naturais.
  • biofertilizante de substâncias húmicas: produto obtido por decomposição e solubilização de materiais orgânicos e posterior oxidação e polimerização, formadas basicamente por ácidos húmicos, ácidos fúlvicos e huminas.
  • biofertilizante de extratos de algas ou algas processadas: produto obtido por extração e beneficiamento de algas. 
  • biofertilizante de extratos vegetais: produto obtido por extração de compostos orgânicos solúveis da fermentação ou beneficiamento de materiais orgânicos, isentos de contaminação biológica.
  • biofertilizante composto: produto obtido pela mistura de dois ou mais biofertilizantes dos grupos de aminoácidos, substâncias húmicas, extratos de algas, extratos vegetais e outros princípios ou agentes orgânicos aprovados.

Conclusão

Os biofertilizantes de aminoácidos se consolidaram como uma solução prática e tecnicamente eficaz para quem busca lavouras mais equilibradas, produtivas e resilientes. 

Quando aplicados de forma estratégica, eles atuam como aliados diretos do metabolismo vegetal, favorecendo o crescimento, a recuperação frente a estresses e a qualidade final da produção.

Mais do que uma tendência, trata-se de uma ferramenta que dialoga com os princípios da nutrição inteligente e da agricultura moderna.

Seu uso exige conhecimento técnico, atenção ao momento fenológico e, principalmente, escolha de fornecedores confiáveis.

Na Grand Agrosciences, cada produto é desenvolvido com base em pesquisa, desempenho a campo e respeito à realidade do agricultor. Nossa missão é entregar soluções seguras, acessíveis e com potencial real de resultado, sempre alinhadas às boas práticas agrícolas e à sustentabilidade.

Engenheiro Agrônomo Julio Cesar Abba

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